sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Donald Fagen - The Nightfly (1982)


Esse é um dos discos mais sensacionais jamais feitos. Ele é cheio de conceitos, composições belas, obsessivamente executadas, uma verdadeira obra-prima. Mas, você, jovem, poderá se perguntar: quem é Donald Fagen? Bem, ele é 50% do Steely Dan, um grande compositor, letrista, dono de uma das maiores assinaturas sonoras num instrumento. Suas levadas no Fender Rhodes e demais engenhocas tecladeiras marcaram a sonoridade jazz pop americana, nascida de apropriações do fusion, misturado com o funk novaiorquino setentista, além de um discretíssimo gênio.

Em 1982, Fagen e seu parceiro Walter Becker resolveram encerrar as atividades do Dan por tempo indeterminado, após o lançamento de Gaucho, em 1981. Só que Fagen ainda tinha material para um outro disco, coisas muito pessoais, reminiscências da infância, cheias de uma visão terna sobre os tempos idos. Daí nasceu The Nightfly, uma homenagem sincera aos tempos do American Way Of Life e sua paranóia anti-comunista. Além desse conceito principal, Fagen resolveu abordar aquela visão de futuro do passado, dos tempos em que achávamos que tudo seria perfeito no ano 2000. O maior sucesso do disco, "I.G.Y", trata exatamente disso. A sigla quer dizer International Geophysical Year, nome que o ano de 1958 recebeu da comunidade internacional pela quantidade de projetos iniciados com vistas a facilitar a vida das pessoas. Fagen menciona algumas dessas suposições e aproveita para viajar na maionese do tempo. Ele cita coisas como viagens de trem entre Paris e Nova York que durariam 90 minutos, máquinas programadas por gente cheia de compaixão, viagens espaciais, cidades com energia solar, um tempo de liberdade. A visão dele é irônica, mas cheia de saudade de um futuro que nunca chegou a existir.

Em outro momento sublime, "New Frontier", Fagen lista provisões para um abrigo anti-nuclear, indo de discos de Dave Brubeck, comida, cerveja e até mesmo uma loura que se parece com a atriz Tuesday Weld, com sotaque francês. Como ele diz "the key-word is survival on the new frontier". Na verdade, outra crítica mordaz à neura anti-comunista, sob o ponto de vista do povo que se preparou para o fim do mundo como se fosse algo simples. Aliás, "New Frontier" tem um dos clipes mais legais já feitos. Além delas, há o jazz estilizado de "Maxine" e "Ruby Baby", o funk de branco bom de bola da faixa-título, o pop caribenho de "The Goodbye Look", o boogie-woogie de "Walking Between Raindrops" e o pop steelydânico de "Green Flower Street". Tudo perfeito.

O instrumental do disco é um caso à parte. O sujeito recrutou um time de músicos de estúdio, algo que ele fazia já no Steely Dan, e deixou que todos executassem as músicas. Temos o baterista Abe Laboriel, o guitarrista Steve Lukather, o baixista Marcus Miller, o baterista Jeff Porcaro, entre muitos.

Nightfly é um marco atemporal da música pop. Seu som não pode ser enquadrado em nenhuma década. Ele é moderno demais para os anos 50, avançado demais para os anos 60, afiado demais para os 70 e está anos-luz à frente de tudo que se pensou em fazer a partir dos anos 80. Ouso dizer que apenas Ry Cooder em suas narrativas musicais pessoais sobre sua infãncia em Los Angeles é tão relevante quanto Donald Fagen. Brilhante.

Um comentário:

banlop disse...

Essa música ainda toca na rádio antena um light fm.Não conhecia o disco e já estou providencioando.