domingo, 30 de novembro de 2008

Queen - A Day At The Races (1976)

Antes de mais nada, convém desfazer uma grande injustiça. O Queen é uma das melhores e mais consistentes bandas da história do rock. Quem viveu a adolescência nos anos 70 e 80 sabe que era impossível passar batido pela obra da Rainha. E, acrescentando um depoimento pessoal, o Queen foi a primeira banda de rock que eu ouvi na vida, sabendo que estava ouvindo rock'n'roll.

Quando isso aconteceu, por volta de 1983/84, a banda de Freddie Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor vivia um momento de transição, tentando se adequar às sonoridades oitentistas que o mundo ouvia. Era um tempo difícil para os chamados "dinossauros" do rock. O Queen fazia jus a esse título, uma vez que estava com treze anos de carreira e acabava de lançar seu décimo-segundo disco, The Works, puxado por três singles de grande sucesso, a saber, "Radio Ga-Ga", "I Want To Break Free" e "It's A Hard Life".

Mesmo que tentasse se adaptar aos novos tempos, o Queen ainda trazia seus elementos primordiais mais ou menos intactos. Nunca uma banda foi tão exagerada e deliberadamente cafona ao forjar seu som e seu visual. Egresso das hordas glam do início dos anos 70 e com um pé firme no nascente heavy metal, o Queen acabou tornando-se uma banda única, que fundia inegável pegada rock com cafonália operística e pianos melodramáticos, tudo isso executado com um cuidado extremo. Todos os integrantes do Queen eram afinadíssimos, grandes instrumentistas e compositores. A banda abusava dos arranjos que enfatizavam a guitarra de Brian May e a voz de Mercury.

Os três primeiros discos do Queen apresentaram a banda para o cenário britânico e a credenciaram para ousar compor e lançar um disco como A Night At The Opera, em 1975. Com pinta de álbum conceitual, o trabalho mostrava que a banda não era uma caricatura, muito pelo contrário. Nenhuma formação em atividade na época seria capaz de fazer um disco tão ousado. Puxado por "Bohemian Rapsody" e contendo hits inegáveis como "39", "You're My Best Friend" e o maior de todos, "Love Of My Life", A Night At The Opera arrebentou as paradas inglesas e adentrou a América triunfalmente.

A arte da capa foi criada por Mercury, e seu conceito foi aproveitado para o disco seguinte, A Day At The Races. Na verdade, o Queen sempre admitiu que A Night At The Opera e A Day At The Races são discos gêmeos, mas que deveriam ser lançados em ordem inversa. A seqüência com capa negra, lançada em 1976 é inferior ao blockbuster de um ano antes, mas trazia uma canção única no cânone da banda, algo que se tornou mais evidente depois da morte de Mercury em 1991 por conta da AIDS.

É importante dizer que, ao ouvir Queen pela primeira vez, era impossível perceber ou dar importância para a homossexualidade de Freddie Mercury. Isso e mais os excessos do som do Queen nunca deram credibilidade à banda junto à imprensa especializada. Até hoje eles são colocados numa espécie de patamar inferior a formações como Deep Purple ou AC/DC. Ao contrário dessas bandas, o som do Queen era mais diverso e amplo, emprestando tinturas progressivas e glam, colorindo o espectro sonoro com tonalidades que ninguém ousava na época.

Temos então A Day At The Races. Lançado no ano do nascimento do punk, 1976, o quinto disco do Queen também traz, a exemplo de seu antecessor, um título emprestado de filme dos Irmãos Marx. "Somebody To Love", a sexta faixa traz Mercury ao piano, com toda a dramaticidade possível, cantando sobre um amor nunca realizado, mas aguardado e até implorado. Mercury sabe que há uma pessoa certa para ele, clama a Deus (literalmente) por sua chegada, uma vez que não suporta mais sofrer com a solidão.

A banda - responsável sempre por todos os coros em todos seus discos - dá uma espécie de atestado de veracidade ao clamor de Mercury, assim como a guitarra de May, que chora ao lado de Freddie ao longo da música. As quatro vozes foram amplificadas em estúdio, soando como se fossem um coro gospel de cem vozes.

Em 1992, quando o Queen se uniu a vários artistas para um concerto em homenagem a Freddie, George Michael assumiu os vocais de "Somebody To Love" e, para a surpresa geral, conseguiu equiparar a performance de Mercury, numa demonstração de rara proeza vocal, ainda que Michael praticamente repita todos os trejeitos de Freddie.

O Queen emplacaria o Top 20 britânico e americano com "Somebody To Love" ainda em 1976 e lançaria no ano seguinte o exuberante News Of The World. Esse disco, mais A Night At The Opera, A Day At The Races e Jazz, lançado em 1978, formam uma espécie de "quadrado mágico" na extensa discografia do Queen, que permanece intacta e de braços abertos para fãs de rock'n'roll como ele deveria sempre ser: ousado, provocador, bem feito e instigante. Com uma simpática pitada de humor negro e exagero.

Nesses tempos de correção política, poucos e bons são os que se deleitam com o som de teatro decadente da velha Rainha. Sorte nossa.


2 comentários:

ruy disse...

CEL, acho que o "clássico perdido" desse disco é "You Take My Breath Away". Belíssima balada, que, embora mais contida, consegue ser ainda mais dramática que "Somebody to Love". Um abraço.

giancarlo rufatto disse...

onde eu nasci, Queen sempre foi maior que ADCD e Deep purple. E eles tinham senso de humor, coisa que o heavy metal não soube assimilar. quer dizer, o darkness soube.