segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Kraftwerk - Trans-Europe Express (1977)


É impossível ouvir este disco do Kraftwerk sem uma expressão de perplexidade no rosto. Várias perguntas vêm à mente: como eles conseguiram fazer esse som sem samplers? Como pensaram nessa atmosfera futurista há 31 anos, ainda futurista hoje? Como bolaram essa estética robótica que não envelheceu? Como podiam fazer algo como esse disco no ano que entrou para a história como o marco-zero do movimento punk?

Este é meu disco preferido da banda alemã, talvez porque contenha o equilíbrio perfeito entre a revolução e a melodia. Eu sou um defensor da música pop, aquela bem feita, bem trabalhada, e, por trás de todo o arsenal revolucionário do Kraftwerk e sua composições enormes, há uma obsessão pelo pop, digamos, mais que perfeito. Um formato que transcenderia instrumentos normais, duração normal, seria uma música "erudita-que-é-pop". Mesmo que as letras e ritmos sejam projetados para o futuro, Trans-Europe Express é retrô quanto às melodias.

Aqui o Kraftwerk presta uma homenagem ao Velho Continente, arremssando-o para o futuro, na melhor tradição alemã de vanguarda. O nome do disco já mostra isso, a faixa-título também, "Franz Schubert" e "Endless Europe" são bandeirosas. Mas há um alien no cânon do Kraftwerk nesse disco: "Hall Of Mirrors". A segunda canção do disco é totalmente diferente do modelo seguido até aqui e não desencadeou nenhum sucessor nos discos seguintes. Trata-se de uma canção pop autêntica, que se vale de loops espaciais de teclados, batida marcial, baixo eletrônico e efeitos mil para conduzir uma melodia triste e uma letra em inglês que canta sobre o homem e seu reflexo, seja ele produzido por espelhos, vidros, pensamentos, paisagens, lembranças. Por que o pop não pode ser "inteligente"?

Em Trans-Europe Express, o Kraftwerk foi mais relevante que tudo que se fazia no ano de 1977, sem exceção.

9 comentários:

F3rnando disse...

E essa música ainda virou crossover nas mãos do Afrika Bambatta!

CEL disse...

Pois é. Inimaginável ainda hoje.

zeca disse...

Adoro esse disco, mas (só pra discordar de novo) meu favorito do Kraftwerk é o Computer World, de 1981. Tem sonoridade mais pop, é certo, mas é um disco perfeito. A primeira faixa, Computer World, fala do uso dos computadores como instrumento de controle social por instituições como o FBI e a CIA. A segunda faixa, Pocket Calculator, oferece o contraponto: o computador a serviço do indivíduo, da expressão e da liberdade individual. E mais, em uma só faixa, Computer Love, o Kraftwerk resumiu tudo o que os Pet Shop Boys fuzeram em uma carreira musical. Computer World é um discaço.

CEL disse...

Minha trinca do Kraftwerk forma com Trans-Europe Express, Computer World e o subestimado Electric Cafe, na ponta-esquerda. Eu amo "The Telephone Call".

Marcelo disse...

Maravilhoso! O Kraftwerk foi uma banda que simplesmente abriu um novo caminho na estrada da música.

Só teve um deslize lá no final do seu texto, CEL: saiu um 1997, em vez de 1977.

CEL disse...

Obrigado, Marceleza. Já corrigi.

Plante Árvores disse...

Belo texto, Cel. Esse disco é realmente maravilhoso, como qse tudo que essa banda já fez até hj. Ouví pela primeira vez em 1978, depois de ter conhecido o Kraftwerk via Man Machine. Fiquei impressionado qdo ouví Hall of Mirros pela primeira vez :) Vale a pena ouvir a versão cantada em alemão tb. Ah, mas o meu favorito é o Autobahn.
Abrax!

Renata Ventura disse...

Olá! Li seu comentário sobre o Quantum of Solace no outro blog, Cine RP - e não concordo quanto à mudança do Bond.
As pessoas não estão entendendo. O Bond AINDA não é o cara cínico mas charmoso dos outros 007. Ele está em processo de se tornar aquele cara.
No Quantum of Solace ele nunca poderia ser charmoso e etc - ele está com raiva, ele está nervoso, ele não pode sair por aí sendo educado e fazendo piadinhas. A mulher que ele amava acabou de traí-lo e se matou na frente dele!
Pode deixar que agora que ele encontrou sua paz de espírito, no próximo filme ele vai voltar mais charmoso.
:-)

CEL disse...

Mas, Renata...
Por que você não comentou lá?!?
Enfim, sobre o 007, concordo sobre o momento que o personagem vive, mas, sinceramente, não sei como ele poderá se tornar cínico e cheio dos trejeitos da versão clássica depois dessa fase brucutu.
Torçamos, pois.