quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Jorge Ben - Jorge Ben (1969)


Qual o melhor disco já feito no Brasil? Clube da Esquina? Chega de Saudade? Transa? Refazenda? O disco de Roberto Carlos de 1969? Talvez a escolha do disco homônimo de Jorge Ben, lançado também em 1969, fosse uma bela opção de consenso. Moderno, transgressor, belíssimo, cheio de apelo pop, inovador, todos esses termos se aplicam ao feixe de 11 canções que Ben gravou nesse trabalho.

Depois de lançar o bom álbum Bidu - Silêncio no Brooklin (1967), no qual ainda não havia encontrado uma formatação ideal para sua mistura de conversa mole com samba, rock, pop e mais um monte de ritmos que não têm definição técnica ou escrita, Ben reafirma sua posição de cronista estético da música popular brasileira, via samba e negritude, sem ser, no entanto, hermético. Talvez ele nunca tenha pensado seriamente nisso, mas poucas vezes algum artista conseguiu sintetizar tão bem uma realidade musical tão complexa como a nossa.

Jorge evoluiu do status de inventor de uma nova maneira de tocar violão, ousada demais para a elitista Bossa Nova e intrincada demais para a Jovem Guarda. Se ele passou a primeira metade da década de 1960 meio deslocado e a situação se agravara porque nem os novíssimos tropicalistas eram capazes de contemplar seu som. Restou a ele permanecer atento às musas do Rio Comprido, aos livros de Alquimia, aos mistérios do violão, ao Flamengo, enfim, a todos os elementos que o inspiravam constantemente.

Com esse disco, Ben foi maior que tudo feito no Brasil na época. Mais moderno até que os Mutantes, então no auge. Aliás, após o lançamento do álbum, Jorge foi assediado pela nata da modernidade nacional. Caetano Veloso e Gal Costa se apressaram em gravá-lo, os Mutantes o convidaram para participar de "A Minha Menina", totalmente formatada nos moldes Benianos e com versão até em inglês. Depois todos lhe dariam o valor merecido.

Não bastasse os atributos artísticos já mencionados aqui, Jorge Ben - o disco - traz uma grande quantidade de sucessos dourados e marcantes da carreira do sujeito. Aqui estão "Tereza", "Que Pena", "Domingas", "País Tropical", "Charles Anjo 45", "Bebete Vambora" e "Take It Easy My Brother Charles", lindas e novíssimas, prontas para chocar aqueles que achavam que habitavam a crista da onda. No comando dos arranjos estavam monstros - que seriam gênios se nascessem nos USA ou Inglaterra - Rogério Duprat e José Briamonte.

Jorge Ben iniciou um período de fertilidade criativa ímpar na carreira de qualquer artista nacional ou estrangeiro. Vieram, um após o outro, entre 1969 e 1976, trabalhos do quilate de Força Bruta, Negro É Lindo, Ben, Tábua de Esmeralda, 10 Anos Depois, Solta O Pavão, África Brasil e a parceria com Gilberto Gil em Gil & Jorge.

Tudo aqui é perfeito e é lamentável que este álbum esteja fora de catálogo no Brasil há tanto tempo, restando a edição americana do selo Dusty Groove como consolo. Aliás, Força Bruta, de 1970, também ganhou edição gringa. Vale a pena.

4 comentários:

Fábio Andrade disse...

Bacana o blog! Acompanhava teus textos na Rock Press impressa, mas não sabia por onde você andava.

Abraço.

CEL disse...

Salva ,Fábio! Estou com outro blog, o http://www.interney.net/blogs/blogdocel/ e também escrevendo aqui e alhures. Ah, a Rock Press também está na web em www.portalrockpress.com.br
Volte sempre.

Lívia disse...

Finalmente um nacional !!!

Fábio Andrade disse...

Da Rock Press já sabia, mas não do outro blog. Bacana, passarei por lá. Quando sobrar tempo, faça uma visita ao meu Fabito's Way também. http://fabitosway.blogspot.com

Abraço.