terça-feira, 18 de novembro de 2008

The Smiths - The Queen Is Dead (1986)


Stephen Patrick Morrissey era um adolescente problemático e introspectivo que fazia do seu quarto seu mundo. Ali ele passou sua mocidade inteira lendo Oscar Wilde e ouvindo cantoras dos anos 60, como Dusty Springfield, Nancy Sinatra, entre outras. Desenvolveu um acurado senso de humor (negro) e um gosto por poesia. Esta história, aparentemente banal e sem interesse para uma cidade cinzenta e lúgubre como Manchester, chegou ao conhecimento de Johnny Marr, a esta altura trabalhando em uma loja de discos do outro lado da cidade. Marr já era músico mas desempregado e duro.

O emprego na loja de discos ajudava no orçamento do rapaz, bem como no seu desenvolvimento musical. Todo o acervo podia ser ouvido por Marr, fato que o expôs ao vírus implacável do rock, cujo primeiro sintoma é a incontrolável vontade de montar uma banda. Marr foi ao encontro de Morrissey e ambos decidiram compor. As letras ácidas do primeiro foram perfeitamente assimiladas pelo senso musical do segundo. Para ocupar as vagas de baixista e baterista, vieram, respectivamente Andy Rourke e Mike Joyce.

Após o bombástico debut em 1984 com um álbum homônimo, os Smiths imediatamente foram alçados à condição de nova "última banda de rock do mundo", algo muito parecido com o que acontecera com o Clash. A Inglaterra carecia de alguém com algo a dizer, num tempo onde Boy George dava as cartas e Morrissey caiu como uma luva. Hatfull of Hollow , uma coletânea de compactos e gravações para as famosas Peel Sessions e Meat Is Murder vieram a seguir e tornaram os Smiths uma celebridade nacional. Porém, em 1985 eles iriam até os limites em termos de criatividade musical.

The Queen Is Dead é um disco com duas músicas a mais que as dez conhecidas. Os dois compactos que o antecederam, "Panic" e "Ask", são parte integrante do conceito da obra e estariam numa proporção igual a que Penny Lane e Strawberry Fields Forever estão para Sgt.Pepper's. Em “Panic”, Morrissey bradava "enforquem o DJ, que não toca o que eu quero ouvir" e em “Ask” ele disparava "isto não é amor, é a bomba atômica que nos mantém juntos". Os fãs se esbaldaram e os detratores se municiaram. Enquanto a primeira música do novo disco, “The Boy With The Thorn In His Side”, cujo compacto trazia uma montagem com a cara de um Truman Capote adolescente, ganhava as paradas nos dois lados do Atlântico, os Smiths preparavam as estratégias de lançamento.

The Queen Is Dead
chegou na virada de 1985/1986 e com pinta de campeão. A evolução dos arranjos de Marr é impressionante. Além dos habituais entrelaces de violões e guitarras, há a inclusão de cordas e flautas. A capa, uma foto de Alain Delon, de 1965, como se estivesse morto, significava o fim de um tempo. Segundo Morrissey, a raínha morta seria o fim do tédio, a libertação das tradições aristocráticas da Inglaterra, em suma, um soco na cara do estabilishment vigente. As canções são um capítulo à parte. São dez manifestos de humor negro contundente, incluindo uma luminosa autocrítica em “Bigmouth Strikes Again”, até um neo-punk em “Cemetery Gates” e na faixa-título. Uma belíssima balada de amor e morte em “There's a Light That Never Goes Out” e uma divertida crítica às meninas britânicas em “Some Girls Are Bigger Than Others”.

A banda ainda daria ao público “Strangeways Here We Come” em 1987 e “Rank” em 1988, para encerrar suas atividades, após uma grande porradaria entre todos os seus membros. Morrissey seguiu em carreira solo e nunca conseguiu repetir o êxito dos tempos iniciais. Marr tocou com uma série de bandas, como Pretenders e Talking Heads e os cozinheiros Rourke e Joyce sumiram na poeira.

Poucos álbuns depois de The Queen Is Dead conseguiram repetir essa combinação dos discos perfeitos, onde capa, música, músicos e atitude, integrados, formam uma idéia única, onde a banda entra em total sintonia com o que quer fazer e faz. Penso que apenas o Nirvana conseguiu isso com seu Nevermind em 1991. E já faz muito tempo.

2 comentários:

Lívia disse...

Amei !!! Me fez sentir mais saudades da banda.

CEL disse...

Esse é o melhor disco deles. Lembra de 1986?