quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Big Star - #1 Record (1972)


Hoje em dia, seguindo a tendência de que o ser humano precisa cada vez de mais tempo para gastar e ele não pode perder um segundo sequer para entender algo muito mais complexo, mesmo que isso seja ouvir alguém cantando sobre o amor perdido, a solidão, a chuva, o céu, enfim, acabamos obrigados a ser felizes sem pensarmos muito se podemos, devemos ou até se queremos ser agora. Talvez depois. Resumindo: a música pop se foi. Ou melhor, se tornou impopular. Virou um gueto, onde residem os artesãos forjados após muitas audições de discos dos Beatles, dos Beach Boys, dos Byrds e do Big Star.

Mesmo que não tenha sido intencional, Brian Wilson, líder dos Beach Boys, definiu em 1967 o que era o pop. Claro que os Beatles já haviam levado o termo pop ao extremo anos antes, mas Wilson acertou na mosca quando disse que queria "fazer uma sinfonia adolescente para Deus" ao se referir a seu abortado projeto "Smile". Pop é entrar em conexão direta com as mais belas melodias, subvertidas para o assovio, para o balbucio, para o cantarolar... e as melodias, amigos, vêm lá de cima.

Mas nem só de Beatles e Beach Boys viveu (e ainda vive) o bom pop. Uma singular formação de Memphis, Tennessee, levou o termo pop para o dicionário. Ironicamente contratado do selo Stax, espacializado em soul e black music em geral, o Big Star nasceu de uma desilusão dupla. Alex Chilton era vocalista e guitarrista de uma banda de soul branco chamada Box Tops enquanto Chris Bell era guitarrista e vocalista de um trio de rock americano com cara de inglês chamado Ice Water. O Box Tops ficou famoso, principalmente na Inglaterra, com o estouro de "The Letter", uma cançoneta pop com tinturas de blue-eyed soul. Bell e Chilton eram colegas de colégio, mas não tão amigos como se supõe.

Após fracassos simultâneos, os dois mais Andy Hummel (piano, e baixo) e Jody Stephens (bateria) formaram o Big Star, copiando o nome de um supermercado vizinho ao Ardent Studios, em Memphis. Ali gravaram o seu primeiro disco, chamado apenas de #1 Record, em 1972, e entraram para a história. Baladas absolutamente perfeitas, como "Thirteen" ou "The Ballad Of El Goodo" conviviam com faixas mais rapidinhas como "Don't Lie To Me" e fizeram do disco uma verdadeira bíblia do que se chamou de power pop. Bell e Chilton continuaram se estanhando e o segundo acabou saindo da banda por divergências musicais. Bell permaneceria no anonimato durante a década de 70, gravando ocasionalmente, ajudado por seu irmão David. Esses registros foram resumidos no disco I Am The Cosmos, de 1978, póstumo, já que Bell se espatifou num acidente de automóvel.

Chilton seguiu com a banda e numa errática, mas impecável carreira solo. Mas a semente estava lançada. O que o Big Star fez com maestria (e outras bandas da época, como Badfinger e Raspberries) foi aperfeiçoar a faceta pop das bandas inglesas do primeiro (Beatles) e segundo escalão (Hollies, Herman's Hermits, Zombies), tornando-as ensolaradas e livres de seu original fog britânico.

Ao fazerem isso, estes pioneiros forjaram um novo som. Criaram padrões e, como todos os pioneiros, não viram fama ou fortuna. Uma injustiça que pode ser reparada por você, adquirindo #1 Record em CD, aproveitando que a versão disponível neste formato ainda traz o soberbo segundo disco, chamado Radio City, gravado um ano depois, já sem Chris Bell.

Obrigatório para quem gosta de rock.


4 comentários:

giancarlo rufatto disse...

um dos 30 discos que mais gosto, simples.

ruy disse...

Grande disco, grande escolha, CEL. Só queria comentar duas coisas, se você me permite:

1) Os Box Tops chegaram ao topo da parada americana com "The Letter" e ficaram quatro semanas lá, em setembro e outubro de 1967. Não repetiram esse sucesso depois, mas entendo que a fama deles nos EUA foi maior que na Inglaterra. O Alex Chilton, que tinha 16 anos quando gravou a música, talvez pudesse -em termos de sucesso comercial, não artístico, claro- usar aquela frase do Orson Welles, "I started at the top and worked my way down ever since". (=

2) Dirão que sou suspeito, já que zombiemaníaco, mas eu não colocaria os Zombies nesse segundo escalão que você listou. Acho que eles eram musicalmente superiores aos Hollies -embora aí o páreo seja difícil- e, sem dúvida, muito melhores que os Herman's Hermits. "Escalão 1,5" me parece mais justo, hehe.

Grande abraço,
Rogério

Jorge Wagner disse...

o que falar de um disco que tem The Ballad Of El Goodo e Thirteen?! lindo, do começo ao fim!

CEL disse...

Ruy, também sou fã dos Zombies e imagino que a colocação deles no "escalão 1.5" seja pela junção de talento e resultado comercial. Mas o critério é subjetivo na raiz, visto que, Herman Hermits é bem inferior e teve mais singles de sucesso. Esse período do pop é tão rico que fica difícil categorizar as bandas. Imagine se tivéssemos um Herman Hermits hoje? Seriam os maiorais. :)